A dificuldade de criar raízes
Um ensaio sobre apego em meio a calçadas irregulares, quadros por pendurar e sobre as coisas que realmente merecem durar.
🧠 Escrito por uma humana… sem IA.
Já parou para observar que algumas pessoas não planejam nada enquanto outras têm um Excell todo organizado com metas para os próximos 5 e 10 anos? Confesso que eu me posicionava no meio desses dois (bem orgulhosa, inclusive), mas essa semana, quadros para pendurar na parede me fizeram ter uma visão diferente.
Temos planos de ir para o Brasil em Agosto e por conta desse “projeto", marido vez ou outra comenta sobre ir a tal cidade, visitar tal amigo, celebrar tal aniversário… Percebi que por mais que “falte pouco” para Agosto, temos tantas outras coisas para fazer e resolver daqui até lá que eu sentia um certo incômodo com cada comentário dele sobre algo que - para mim - ainda parece distante.
Como não fiz uma pós-graduação em Psicologia Analítica à toa, toda “percepção” vira análise por aqui. E lá fui eu vasculhar o que acontece nesse Self que vos escreve num domingo de manhã…
A minha dificuldade em metas de longo prazo tem a ver com apego.
Aquiles, chega aqui que bateu direitinho no calcanhar!
Um dia explico mais sobre como esse tal de “apego” tem a ver com minha história pessoal, mas fazendo algo de útil com esse ensaio, criar uma ligação afetuosa com alguém ou algo precisa de tempo para aprofundar suas raízes.
Falando em raízes, aqui na minha rua, tem uma calçada que eu evito de todo jeito. Ela tem árvores grandes e lindas e um calçamento feito de pequenas pedras unidas em desenhos geométricos. Por mais que eu não seja apegada a essa calçada e opte sempre por outro caminho, as árvores têm uma dedicação constante e excessiva ao lugar onde estão. Suas raízes certamente são muito profundas e já atingiram lugares inimagináveis. Mas isso não foi suficiente e agora elas buscam seguir se enraizando de forma a abrir espaços entre a geometria das pedras fazendo com que a calçada se torne um verdadeiro rally de carrinhos de supermercado para as velhinhas italianas de saia, meia calça e tênis (triste, mas elas estão se desapegando das sapatilhas dos anos 60).
Raízes fazem isso. Elas precisam se aprofundar, abrir espaço, abraçar. E como uma amiga minha reparou certa vez, eu sou uma canceriana que não sabe (acho que agora sei) o que fazer com as mãos quando alguém me abraça de repente.
A análise poderia terminar aí não fossem os quadros para pendurar. Quando viemos do Canadá para a Itália no final de 2022, os quadros ficaram de fora da mudança já que viemos apenas com malas. Nesses últimos três anos, eles foram carinhosamente guardados por amigos que tinham naqueles quadros um vínculo invisível com a gente.
Esse ano, finalmente, pudemos voltar ao Canadá, rever os amigos, fechar ciclos e trazer os quadros. E assim, voltamos a mais uma reflexão sobre apego…
Moramos em um apartamento alugado e a proprietária sempre fez questão de sugerir que não furássemos as paredes (além de falar sobre marcas, vidros, etc.). Ela era tão apegada à perfeição que cheguei a procurar no contrato sua data de nascimento para ver se não era do signo de Virgem. Não, não é. Escorpião! Mas aposto que tem muita coisa ali na casa 6.
Marido, Pisciano que é, sempre levou os comentários dela com leveza (leia-se: ignorar). Afinal, o que ele queria mesmo era transformar nossa casa em uma galeria de artes. Em busca de uma solução que agradasse Gregos e Troianos, nossos amigos canadenses vieram a serviço oferecendo uma tape da 3M que, segundo o engenheiro do grupo, não marca a parede, aguenta quadros de até 7 quilos e nunca deu problemas para eles.
(faltou só levar em consideração como são pintadas as paredes italianas, eu diria)
Corta para nosso retorno à Itália.
Enquanto marido caminhava pela casa com o martelo nas mãos se sentindo o Thor da Mitologia Nórdica, eu, por outro lado, ficava tentando convencê-lo de que a tape da 3M ia funcionar. E assim, chegamos a um acordo fifty-fifty onde os quadros mais pesados ganhariam um nobre furo na parede da Sra. Sforza (que na verdade se chama Visconti). Amantes de Tarot entenderão essa referência.
Paft!
Estatelado no chão, com vidro para todo lado, um dos quadros refletia a tristeza de não ter sido martelado. Maldita 3M.
Paft!
Mais um quadro caído poucas horas depois. Esse ao menos, consegui recuperar.
A partir daí, a gente podia simplesmente tirar tudo da parede e chamar o Thor para fazer o serviço, mas a pós foi sofrida demais para eu não continuar na minha autoanálise…
Por que era tão difícil para mim pregar os quadros se, aparentemente, já teremos que pintar todo o apartamento quando formos embora? O que me impedia relaxar com relação a isso se nosso projeto é ficar aqui por pelo menos mais 5 anos? Raízes. Furar a parede para mim era como levantar as pedrinhas da calçada. Era como confirmar para mim que estamos realizando um projeto de longo prazo, tão difícil para alguém que é boa com metas semanais, quiça semestrais.
A ironia aí é que nossos quadros representam mais de 20 anos de história com fotos dos países que visitamos, obras que trazem significado para nós ou ainda que foram feitas por artistas que admiramos. Cada um destes quadros tem uma história importante e cada história é repleta de ligações afetuosas.
E assim, voltamos ao afeto.
Quase todos os quadros já foram pendurados e estou aprendendo a lidar com os sentimentos que estas raízes trazem para o lugar que tenho chamado de lar. Certa vez, uma amiga me disse que eu era como Orquídeas que, sim, têm raízes, mas que suas raízes são aéreas. Mas guardo também na lembrança a pergunta de outra amiga: “por que você é tão autossuficiente?”. Doeu em mim porque eu sabia o quanto doía nela.
Não tenho uma conclusão definitiva para tudo isso… afinal, a palavra definitivo me levaria a novas reflexões. Ainda assim, olhando os quadros na parede enquanto escrevo, percebo que nem sempre a vida espera de nós fitas que descolam facilmente. Há momentos em que precisamos de pregos.
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