A MULHER-ESQUELETO: encarando a natureza da vida-morte-vida do amor
Hoje a gente vai falar sobre o quinto capítulo do livro "Mulheres que correm com os lobos", de Clarissa Pinkola Estès, intitulado " a caçada: quando o coração é um caçador solitário".
Seguimos aqui em nossa série de artigos sobre o livro Mulheres que Correm com os Lobos" de Clarissa Pinkola Estés. Se você caiu aqui de paraquedas e ainda não viu os conteúdos anteriores, basta clicar AQUI para ver os capítulos anteriores.
Este capítulo, em particular, além de falar sobre como buscamos e firmamos um relacionamento é um dos meus preferidos pois traz uma lenda do povo Inuit.
Os Inuíts são um dos povos originários que habitam as regiões árticas do Canadá. Eles são conhecidos por sua rica cultura e história, bem como por suas adaptações notáveis à vida em ambientes extremamente frios e desafiadores. Os Inuits são famosos por sua habilidade na caça de focas, baleias, morsas e outros animais marinhos, além de Cariboos e outros mamíferos terrestres.
Os Inuíts têm suas próprias línguas, que varia de acordo com a região. O Inuktitut é uma das línguas mais faladas. Sua cultura é rica em tradições orais, incluindo histórias, lendas e canções que são transmitidas de geração em geração. Os Inuíts são conhecidos por sua arte, que inclui esculturas em pedra, marfim e ossos, bem como tapeçaria e cerâmica. Suas criações frequentemente retratam a vida cotidiana, a natureza e temas culturais.
Por quase nove anos, eu morei no Canada e nos últimos anos tive a oportunidade de trabalhar e me relacionar com algumas das diversas primeiras nações que seguem buscando reconhecer que seu território foi não-cedido e sua cultura dizimada, entre outras questões ainda mais profundas que seguem trazendo consequências para as novas gerações.
No conto que ilustra este capítulo do livro, um Inuit está pescando no gelo quando, de repente, sente algo grande na linha de pesca. Quanto mais ele luta para trazer o que acredita ser um grande peixe para a superfície, mais a linha se emaranha nas costelas da mulher-esqueleto.
Quando a mulher-esqueleto finalmente chega à superfície, o pescador se depara com uma cabeça calva, pequenos corais nas órbitas do crânio e crustáceos nos velhos dentes de marfim. Quando ele se deu conta, ela já estava dentro de seu caiaque.
Assustado, o pescador começou a remar em direção à terra firme. Sem perceber que a mulher esqueleto estava emaranhada em sua linha, ele tinha a sensação de que ela estava de pé, correndo atrás dele enquanto o pescador corria em direção ao seu iglu.
Lá, na escuridão de seu iglu, o pescador ficou em silêncio acreditando estar sozinho. Quando ele acendeu sua lamparina de óleo de baleia, lá estava ela, com um calcanhar sobre um ombro, um joelho preso nas costelas, um pé por cima do cotovelo.
Como um homem solitário e ainda surpreso com o que viu, ele começou, sem saber bem por quê, a soltá-la de sua linha de pescar. Ao final, cobriu os ossos de pele para aquecê-la. Depois de tanto trabalhar, o homem sentiu sono e logo estava sonhando. Como acontece às vezes como sonhamos, uma lágrima escorreu seu rosto.
Vendo o brilho da lágrima iluminado pelo fogo, a mulher-esqueleto pôs sua boca junto à lagrima e aquela única gota foi como um rio que ela bebeu até saciar sua sede de tantos anos.
Deitada ao seu lado, ela retirou seu coração: um tambor. Ela sentou-se ao seu lado e começou a batucar e cantar “carne, carne, carne....” e conforme cantava seu corpo foi se revestindo de carne, seus cabelos surgiram, seus olhos ganharam brilho, suas pernas se separaram e seus seios ganharam forma.
Quando estava pronta, cantou para despir o homem e se enfiou na cama, deixando que as peles se tocassem. E foi assim que eles acordaram juntos.
Pronta para desbravar esta história comigo?
Frequentemente, nas histórias do Norte, o amor não é um encontro romântico entre dois amantes. As histórias das regiões próximas ao Pólo descrevem o amor como a união de dois seres cuja força reunida permite a um deles, ou a ambos, a entrada em comunicação com o mundo da alma e a participação no destino como uma dança com a vida e a morte. O amor significa um vinculo visível que prevalece na fartura ou na austeridade.
Para que esta união aconteça, é preciso trazer um terceiro elemento para a relação. Este elemento é justamente a mulher-esqueleto, também conhecida como “A morte”.
Claro que não podemos deixar de fazer referência aqui à carta da morte no tarot, que fala justamente sobre a transformação pela qual precisamos passar para “renascer”, como um oráculo que sabe exatamente o momento de um ciclo começar e terminar.
Para que se crie um amor duradouro, a mulher-esqueleto precisa ser aceita no relacionamento e abraçada pelos dois amantes.
A incapacidade de encarar a mulher-esqueleto e de desenredá-la é o que provoca o fracasso de muitos relacionamentos no mundo em que vivemos.
Enquanto aqueles que são iniciados não têm medo da morte, a cultura muitas vezes nos incita a jogar a mulher esqueleto pelo penhasco abaixo, não só por ela ser apavorante, mas também porque demora muito para a gente aprender a lidar com ela. Estamos cada vez mais acelerados e descartando tudo aquilo que não nos agrada em uma primeira vista.
Só que... para o amor se estabelecer, é preciso tempo para desemaranhar seus ossos e olhos para assimilar o belo.
Diz-se que tudo o que procuramos também está à nossa procura; que se ficarmos bem quietas, o que procuramos nos encontrará. E esse é o jeito de se aproximar da natureza da morte: com confiança de espírito.
A imagem do sono inocente aí mostra que o pescador está entrando em uma transição que o levará a um estágio mais profundo de maturidade, que tudo será como deve ser.
O momento crítico aí é justamente quando uma pessoa permite-se amar
“apesar de”... apesar de ter suas angústias, apesar de ficar nervoso, apesar de ter sido ferido anteriormente, apesar de temer o desconhecido. Às vezes faltam palavras para estimular a coragem, é preciso simplesmente confiar e mergulhar. Pois é melhor confiar na direção para qual o amor nos leva do que ficar confinando em algum leito rachado do rio seco da psique.
Quando uma vida é excessivamente controlada, cada vez há menos vida a controlar.
Todos nós já cometemos o erro de pensar que uma outra pessoa podia ser nossa cura, mas leva tempo para entender que isso não existe já que colocamos nossos ferimentos na parte externa em vez de curá-los dentro de nós. Não há nada que uma mulher deseje mais de um parceiro ou parceira do que a atitude de ele/ela desmanchar suas projeções e encarar seu próprio ferimento.
Estès segue sua reflexão trazendo as primeiras fases do amor, que são divididas em sete momentos diferentes. Aliás, pode pegar papel e caneta ai para entender muito sobre o seu próprio relacionamento atual ou anteriores através das palavras de Estès...
Na primeira fase…
… acontece a descoberta acidental do amor. O pescador não se dá conta, mas está trazendo para a superfície a criatura mais apavorante que jamais conheceu. Esta fase marca o primeiro estágio dos apaixonados: estamos todos cegos. Estamos com fome, colocamos a isca no anzol, mas não sabemos exatamente aquilo que estamos buscando.
Estès, como Psicóloga, relata histórias de pacientes que chegam ao seu consultório dizendo com um pavor feliz: “conheci uma pessoa. Eu não queria. Estava na minha. Nem estava olhando, quando... de repente, conheci alguém. E agora?”
Antes que possam se dar conta, a mulher-esqueleto apareceu na superfície, subiu na canoa e está indo em direção ao iglu. Para a maior parte das pessoas, esta é a hora de correr, assim como fez o pescador. É natural agir assim, mas não por muito tempo, nem para sempre.
Na segunda fase…
… ocorre a caça e a tentativa de ocultação. É nesse estágio que as pessoas se enfurnam na toca, tentando ficar invisíveis à mulher esqueleto. Nessa fase, quanto mais tentamos fugir de um relacionamento, parece que ele ganha mais vida.
Quanto mais vida é gerada, mais assustados ficamos. É aqui que tentamos racionalizar o amor. É quando dizemos “ posso me dar melhor com outra pessoa”, “não quero renunciar a x, y ou z” (e aqui a gente preenche com todo tipo de coisa), “não quero mudar minha vida”, “não quero encarar minhas feridas nem a de outra pessoa”, “ainda não estou pronto” ou ainda “não quero permitir isso sem antes saber o que virá depois”.
Aliás, o famoso “dar um tempo” nos tempos modernos é semelhante ao iglu do pescador: quentinho e seguro.
A conclusão aí é que aqueles que entram em um relacionamento com a mulher esqueleto conquistarão um duradouro talento para o amor. E aqueles que se recusarem não conquistarão nada. Não tem como evitar isso.
A verdade é que não existe a sensação de se estar completamente pronto ou de ser a hora certa. Como acontece com qualquer mergulho no inconsciente, chega uma hora em que simplesmente torcemos para que dê certo e saltamos rumo ao desconhecido.
Se quisermos amar, não há como fugir do aprendizado de abraçar a mulher esqueleto
Na terceira fase…
… é quando desembaraçamos o esqueleto e quando compreendemos os aspectos da vida-morte-vida.
Quando o pescador vê a mulher esqueleto toda emaranhada, ele vê também o vislumbre de algo que não sabe bem o que é. Se antes ele fugiu, agora consegue tocá-la. Muito embora a gente se sinta assustados, estamos dispostos a tocar o não belo no outro e em nós mesmos, as nossas sombras.
Este é justamente o ensinamento da energia arquetípica de Libra: somente quando compartilhamos nossas sombras e ouvimos as sombras do outro somos capazes de nos relacionar.
Uma pessoa que tenha desembaraçado a mulher-esqueleto conhece a paciência, sabe esperar. Ela não se choca com a escassez, nem tem medo dela. Suas necessidades ao imediatismo são substituídas pelo tempo necessário para desemaranhar o amor.
Na quarta fase…
… ocorre a confiança que gera o relaxamento.
Quando o pescador deixa se levar nos braços de Morfeu, ele relaxa. O sono é um símbolo do renascimento. Nos mitos da criação, as almas adormecem enquanto se realiza uma transformação.
Na quinta fase…
… temos o compartilhamento de sonhos futuros e tristezas passadas.
Enquanto o pescador dorme, uma lágrima solta do canto do seu olho. A mulher-esqueleto, cheia de sede, bebe a lágrima do pescador. Na mitologia, a lágrima detém o poder criativo e representa a união sincera. No folclore das ervas, a lágrima é um aglutinante para unir ingredientes e almas. Nos contos de fadas, quando a lágrima brota, ela espanta ladrões, provoca inundações dos rios ou invocam espíritos. Quando tocam um corpo, curam e restauram a visão. Quanto tocadas, causam a concepção.
Despido agora de todos os espinhos, anzóis e facas do mundo diurno, o homem atrai a mulher-esqueleto para deitar-se ao seu lado, para beber e se nutrir do seu sentimento mais profundo. Quando a lágrima cai de seu rosto, o pescador torna-se seu próprio curandeiro e não procura a mulher como um analgésico.Ele se deparou com a própria dor (ou sombras) e a reconhece ao tocá-la.
A lágrima do pescador atrai para ele a mulher esqueleto que deseja participar mais da sua vida.
Na sexta fase…
… temos o início da cura dos ferimentos arcaicos. Quando o homem entrega seu coração por inteiro, ele se torna uma força espantosa. O coração aí simboliza sua essência. Quando a mulher canta gerando carne para si mesma, a pessoa cujo coração ela está usando, sente o que está acontecendo, enche-se com a criação, transborda com ela.
Na tradição, tambores feitos de ossos humanos invocam os mortos. Tambores feitos com o couro de certos animais são bons para conclamar os espíritos de animais. Um tambor feito com o coração, como no conto, invocará os espíritos que estão ligados ao coração humano.
E aqui trago mais uma informação que considero fundamental compartilhar nos dias atuais:
É comum vermos mulheres e homens brancos tocando tambores nas redes sociais como apropriação cultural, sem a menor noção da profundidade, significado e responsabilidade que este ato tem para as primeiras nações. Tocar um tambor requer uma cultura, uma iniciação ou ainda uma permissão a de quem esta rica cultura é de direito. É comum vermos lojas (sobretudo no Canada) que vendem tambores ou ainda pessoas que não são originarias das Primeiras Nações tocarem ou, pior, ensinarem outras pessoas a tocarem o tambor. Tenha muito cuidado ao ver isso acontecer, questione e respeite a cultura das primeiras nações que tiveram e seguem tendo sua cultura dizimada nos dias atuais.
E por último, na sétima fase do amor…
… quando temos a fusão do corpo e da alma.
Muitas vezes fugimos da natureza da vida-morte-vida porque acreditamos que o amor é apenas uma dádiva. No entanto, o amor em sua essência é uma série de mortes e renascimentos. A paixão morre e volta. A dor é espantada para longe e vem à tona mais adiante. Amar significa abraçar e ao mesmo tempo suportar inúmeros finais e inúmeros recomeços – todos no mesmo relacionamento.
Novas atividades são uma cura para o tédio, a intimidade é a cura para a solidão a solidão é a cura para a sensação de falta de espaço. Sem o conhecimento dessa dança, podemos ter a tendência a tentar nos curar com gastos excessivos, exposição a riscos, escolhas irresponsáveis e a busca por um novo parceiro.
Para as mulheres que leem o livro "Mulheres que Correm com os Lobos", este conto pode ser interpretado como uma mensagem sobre a vida-morte-vida pela qual passamos quando optamos por nos relacionar com alguém. Muito embora possa existir discórdia, buscamos parceiros para toda a vida. Os vínculos formados devem ser capazes de nos permitir ultrapassar invernos rigorosos, primaveras abundantes, longas caminhadas, novas ninhadas, antigos predadores, danças tribais e cantos em coro. A natureza da vida-morte-vida é um ciclo de animação, desenvolvimento, declínio e morte que sempre se faz seguir de uma reanimação.
Se você já fez uma consulta de Psicoterapia, Astrologia ou Tarot comigo com a temática de relacionamentos, isso é o que eu chamo de contratos. Quando iniciamos um relacionamento com alguém, assinamos um contrato imaginário com o outro.
De tempos em tempos, precisamos reler juntos este contrato e decidir:
Ele segue sem alteração?
Precisamos fazer uma alteração contratual?
Ou um adendo ou anexo resolve tudo?
Ou ainda, quando deixamos de revisar o contrato por um tempo: será que chegou a hora de uma recisão?
Esta é a tal dança sobre a qual Clarissa Pinkola Estès fala.
E também a constatação da vida-morte-vida nos relacionamentos que nada mais é do que abraçar e ao mesmo tempo suportar inúmeros finais e inúmeros recomeços em um mesmo relacionamento.
Estès fala também da importância de todas as fases e de uma tendência que temos de “pular” ou acelerar algumas delas. São estas fases que permitem que a gente crie um vinculo imortal de alma para alma.
É assim que o relacionamento amoroso deveria funcionar: com cada parceiro transformando o outro. A força e o poder de cada um são desembaraçados e compartilhados.
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E assim, seguiremos juntas nesta busca de transformar chumbo em ouro.
E assim, seguiremos juntas nesta busca de transformar chumbo em ouro.
Como posso te ajudar?
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